Capítulo
1 –
Lanças e Folhas
Ele sabia que era
noite. Mais porque os ferreiros não batiam mais seus malhos e a taverna soltava
fumaça do que pelos céus em si. Os dias andavam mais curtos ultimamente. Era
quase impossível distinguir algum momento entre o meio-dia e o anoitecer, e
para uma criança isso era uma mera condição do tempo. Nogard era um garoto
grande para sua idade, tinha cabelos curtos e negros, vestia uma capa e um
colete tão surrados quanto podiam estar antes de rasgarem por completo, e
carregava dois elmos, algo estranho para uma criança carregar com tanta pressa.
Nogard passou pelas ruas estreitas perto da Taverna do Velho Lumber-meio-nariz.
Caminhava com dificuldade pois os dois elmos que carregava eram muito maiores
do que ele achava que fossem, tropeçou umas três vezes antes de colocar um
deles na cabeça. O chão ainda estava meio barrento pelas chuvas, empata-ferros
Merlon as chamava, isso porque os ferreiros da província de Ferro Forte odiavam
a chuva. Dizia-se em Ferro Forte que enquanto chovia espíritos das águas
enchiam os ares com sua presença e enfraqueciam as espadas, fazer uma boa
espada durante um temporal era tão raro quanto ver um Dragão. Quando passou
pela taverna já estava ralado, cansado e enlameado, Arwen você me paga, por que eu tenho que buscar isso? Se Merlon me pega
estou frito.
Nogard tinha dez
anos, nascera durante a Ultima Grande Guerra, mas não era um Guerreiro por
Nascença, esse prestigio era conferido apenas aos guerreiros de Pontas de
Lanças. Sua mãe era uma costureira de Chifre do Dragão e seu pai um Ferreiro de
Ferro Forte. Durante a batalha, após a debandada dos Dragões, todas as mulheres
foram enviadas para o norte, para ficarem em segurança na cidade de Elmo de
Gelo, foi ali que ele nasceu, a vários dias da batalha, portanto não era
agraciado pelo Nascimento da Batalha. Sua mãe veio para Ferro Forte quando ele
tinha dois anos e infelizmente veio viúva. Nogard não conhecia nada alem dos
campos, das muralhas de Pescoço dos Homens e do Rio de Ferro, as histórias que
o decadente Merlon lhe contava eram a única informação sobre a história de todo
o reino de Andor, e isso era feito às escondidas da sua mãe. Serena abominava a
guerra e todas as peças que a vila produzia para o reino, a guerra tinha levado
aquilo que era mais precioso para ela e ela não deixaria isso ocorrer
novamente.
Nogard chegou ao
limite da vila, a fumaça da Taverna ainda estava muito volumosa, o que queria
dizer que não era muito tarde. Havia um bosque de onde os ferreiros retiravam
lenha e ele entrou ali, em meio a tropeções e choramingos. Nogard conhecia bem
aquele bosque, buscava lenha ali por muitas vezes durante o dia, era o ajudante
do ferreiro mais velho e pobre de toda Ferro Forte, Merlon. Caminhou até uma
clareira rodeada por longos pinheiro e então viu sua adversária. Estava sentada
sobre uma pedra coberta de musgo embaixo de uma árvore tão volumosa que
podia-se dormir em seu tronco, tinha os joelhos próximos ao queixo com uma cara
que revelava a sua impaciência. Estava mexendo algumas folhas secas com um
galho quando viu o garoto se aproximar.
- Nossa, pensei que
não vinha mais, você demorou tanto que quase comecei sem você. - disse Arwen
emburrada saltando da pedra e caminhando em direção a um saco que Nogard não
tinha visto, até então.
Pelos dragões, ela trouxe aquilo tudo?
- Arwen, estava
pensando melhor e acho que não devemos fazer isso. – disse Nogard coçando a
cabeça.
- Do que esta
falando Nog? Planejamos isso a dias, estou com muita energia, e além de tudo
devolveremos isso ao velho Merlon antes de ele terminar sua caneca de cerveja.
– disse Arwen fuçando no saco sujo.
Nogard era mais novo
que Arwen dois anos e isso em nada o agradava. Ele queria parecer um homem
feito e não fazer aquilo naquela noite parecia ser uma atitude bem adulta.
- Mas eu conheço ele
Arwen, ele sabe tudo o que tem ali, cada elmo cada espada...
- Lanças. – disse
Arwen.
- O que você quer
dizer com...
- Lança! – gritou
Arwen e arremessou uma lança de madeira e ferro aos pés de Nogard.
Invadir a fundição
de Merlon e roubar seus itens já era problema o bastante para Nogard, mas ver
os desenhos nas laminas das lanças e reconhecer que eram as encomendas do Lord Grum,
senhor de Pontas de Lança, foi assustador.
- Espere Arwen, você
não entende, essas lanças são...
Seus choramingos
foram interrompidos pela primeira estocada de Arwen. Nogard rolou por baixo da
lança e pegou a sua, não era a primeira vez que faziam treinos de lanças,
apesar de que lanças de galhos com laminas de folhas não eram a mesma coisa que
as grandes lanças dos Guerreiros por Nascença. E ele percebeu isso no momento
em que pegou a lança.
- Ei, isso esta
pesado demais, não consigo nem levanta-la. – disse tentando equilibrar a lança
com a maior firmeza possível.
Arwen já estava com
um sorriso que Nogard sabia ser de brincadeira.
- Não acredito que
vai fugir, ainda mais lutando contra uma garota, por acaso é alguma espécie de
Covarde Alado? – disse Arwen, referindo-se ao nome pelo qual os Dragões de
Andor eram conhecidos.
- Em primeiro lugar
os Dragões não são covardes, Merlon me disse que eles tiveram um motivo para
não lutar, um motivo que os homens não entendem – disse sorrindo e colocando o
enorme elmo na cabeça -, e em segundo lugar, não fujo de meninas.
Começaram a lutar. Lutar
era um pouco demais para uma menina de doze anos e um garotinho com dez, os
risinhos e os choramingos faziam mais barulho do que as lanças, os elmos, e os
escudos de folhas. Arwen golpeou os pés de Nogard mas ele deu um pequeno salto
e escapou do golpe. O garoto correu de encontro a amiga tentando abarroa-la com
o escudo, afim de desequilibrar a garota. Com a lança pesada e o elmo grande
demais, Arwen se desequilibrou. A manobra funcionou, mas Nogard perdeu seu escudo.
Caíram rindo sobre o macio musgo da pedra. Uma chuva de folhas, que outrora
foram o escudo de Nogard, caiam sobre eles. Então a lança perfurou a árvore tão
rapidamente que fez ela vibrar. O golpe foi tão forte que mais folhas caíram
sobre eles. Nogard não sabia o que o espantava mais. Se era o fato da lança
arremessada ter balançado uma arvore tão grande ou o fato do velho Merlon estar
parado ao lado do saco de equipamentos, com sua caneca de cerveja na mão e cara
de poucos amigos.
